Vamos à segunda parte da história do McLaren MP4/1, um carro
que marcou a F1 por ser precursor em tecnologia e ser o veículo de um novo
domínio na categoria. A primeira está aqui.
1981 foi um ano de reorganização. Para 1982, a equipe se
valeu de um programa de desenvolvimento montado no túnel de vento do Instituto
Nacional da Marinha Britânica e no centro de desenvolvimento da Michelin, com
quem o desenvolvimento técnico aumentou. John Barnard entendeu que o MP4/1 era uma
boa base e procurou mexer em detalhes, aperfeiçoando suspensões, aerodinâmica
inferior e redução de peso. Assim veio o MP4/1B.
O carro continuava a ter o chassi desenhado na Inglaterra,
os painéis de materiais compostos fabricados pela Hércules nos Estados Unidos e
novamente montados na Inglaterra. O motor continuava a ser o velho de guerra
Cosworth V8. Embora se começasse a pensar em um turbo...Mas isso é papo mais
para frente...
Tratando de pilotos, a equipe dispensou Andrea De Cesaris,
que foi para a Alfa Romeo. John Watson foi mantido e atendendo a um pedido da
Phillip Morris, foi atrás de um piloto de ponta. A
escolha foi Niki Lauda, que havia deixado a Brabham em 79 no meio do GP do
Canadá. O austríaco a esta altura estava envolvido com sua companhia aérea, a
Lauda Air. Após uma negociação pesada e testes em Donington Park e Paul Ricard, Lauda foi anunciado como o novo piloto da
McLaren.
Só que o acordo foi curioso. Como Lauda estava parado há mais de dois anos, a Philip Morris não queria bancar um grande contrato. Aí foi feita a proposta: pagavam o salário pedido por ele, mas faria-se um contrato inicial de três provas, que poderia ser renovado por mais três provas. Caso não conseguisse bons resultados, as partes abririam mão e vida que segue. O austríaco aceitou.
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Lauda, Barnard e Watson: o trio de ferro da McLaren |
As apostas se mostraram certas. Lauda voltou com a
competência de outrora e ajudou a confirmar o potencial do MP 4/1B. Chegou em
4º logo na Africa do Sul e venceu o GP de Long Beach, logo em sua terceira
prova após o retorno. E teve seu contrato renovado para o resto da temporada. Ganhou também na Inglaterra e poderia ter obtido em 3º
lugar no soturno GP da Bélgica, mas foi desclassificado por estar 2kg abaixo do
peso mínimo. No fim, obteve 30 pontos, chegando em 5º lugar.
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Lauda colocando a equipe para trabalhar ao seu redor... |
E o que deveria ser o “segundão”, foi um dos postulantes
daquela louca temporada. Watson obteve um 2º lugar no Brasil, venceu na Bélgica
e em Detroit, onde contou com uma série de situações (incluíndo uma batida na
6ª volta). Uma sequencia de 6 abandonos o prejudicou, mas chegou até o final
ainda em condições de disputar o título. Acabou em 3º lugar, empatado com
Didier Pironi, com 39 pontos.
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John Watson rumo à vitória em Detroit |
O desempenho em pista havia sido interessante, a despeito de uma série de problemas técnicos. Mas o lado de
fora acabou por ser mais ainda...
Como dito no início do texto, a Mclaren foi uma daquelas
equipes que percebeu que, se não tivesse um motor turbo para chamar de seu,
ficaria para trás. E este processo ajudou a detonar uma mudança maior ainda...
Desde o início, o processo de fusão da Project Four e a
McLaren não correu em águas calmas. Ron Dennis e Teddy Mayer começaram a ter
uma série de desavenças sobre os rumos da equipe. A decisão sobre os motores
acabou por detonar tudo. Mayer e Tyler Alexander se preocupavam com a escalada
de custos e advogavam que a McLaren deveria usar um motor existente, como o BMW
ou o Renault.
Já Ron Dennis, em conjunto com John Barnard, não estavam
satisfeitos com este tipo de solução. Barnard então era mais incisivo na
posição de não aceitar soluções correntes. E surgiu a idéia: e se alguém
fizesse um motor para nós?
Após algumas consultas no mercado, um dos nomes que havia na
lista era a Porsche. A marca alemã já havia participado da F1 nos anos 60 e
volta e meia era citada como uma potencial fornecedora. E quando houve a
reunião da McLaren, a resposta era: não nos interessa ser fornecedora de
motores.
Mas Ron Dennis, bom negociante, chegou para Hans Metzger,
então chefe do departamento de motores, e disparou: e se alguém pagasse para
vocês fazerem um motor? A conversa mudou inteiramente....
Um pré-acordo foi fechado. A McLaren seria responsável por
financiar o desenvolvimento e a construção de um motor turbo. Mas a continuação
estava condicionada a obtenção de fontes que bancassem o resto do programa.
Enquanto John Barnard passava o que queria para os alemães
para ter um motor potente e extremamente compacto para poder obter o máximo de
efeito solo possível, Ron Dennis ia em busca de apoiadores para o projeto. Esta
foi a gota d´água para que Teddy Mayer e Tyler Alexander saíssem da sociedade e
Ron Dennis assumisse definitivamente as rédeas do negócio, com John Barnard
também entrando para o quadro de acionistas.(Tyler acabou por retornar à equipe em 1989).
Teddy Mayer, Tyler Alexander e Ron Dennis. No fim de 1982, só restou Dennis... |
A Phillip Morris foi contatada para ser a investidora do
projeto, mas não aceitou por achar que já gastava dinheiro demais com a equipe.
Até que aparece um saudita chamado Mansour Ojjeh. Filho de um famoso negociante
de petróleo, a família montou uma empresa de pesquisa chamada Technologies d' Avant Gard
(Tecnologias de Vanguarda, em francês) e era um dos patrocinadores da Williams
até então.
Ron Dennis apresentou seu projeto e tinha a intenção de que
aquele motor não pudesse ser somente utilizado na F1, mas também em motonáutica
e em outras áreas do esporte motor. Houve um acordo e a McLaren International
em conjunto com a TAG, criaram a TAG Turbo Engines, que seria a responsável por
contratar a Porsche para a construção e desenvolvimento de um motor turbo.
Surgiu a idéia de que a Williams também usasse este motor, mas Frank Williams
fechou um acordo com a Honda.
O acordo formal com a Porsche foi assinado em setembro de 1982
e em 18 de dezembro daquele ano, o primeiro protótipo rodava nos dinamômetros de
Weissach: era o TTE-PO1- V6. Um bloco de 6 cilindros em V, extremamente
compacto (80º) e feito atendendo a tudo que John Barnard pediu.
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Motor TAG-Porsche: o futuro dominador. |
1983 prometia ser o ano em que a McLaren se consolidaria no
grupo da frente. Mas isso fica para a terceira e última parte do texto sobre o
McLaren MP4/1.
Ótima leitura ! Parabéns!
ResponderExcluirObrigado!
ExcluirInteressante que quase tivemos uma Williams-Porsche. A história do mundial de 1984 poderia ser diferente. Parabéns pelas informações com qualidade.
ResponderExcluirSim...por muito pouco..mas a Williams apanhou com o desenho do carro..
ExcluirMuito bom. Vlw.
ResponderExcluirMuito obrigado, ficamos felizes com esse resultado!
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